THIS IS US E SEU CORAÇÃO GIGANTESCO AO FALAR DO QUE NÓS SOMOS FEITOS
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THIS IS US E SEU CORAÇÃO GIGANTESCO AO FALAR DO QUE NÓS SOMOS FEITOS

Muitas vezes a novela é vista de um modo depreciativo aqui no Brasil, só que para sermos justos nessa avaliação, devemos retornar ao cerne da questão sobre do que é feito um drama. Lágrimas, lições, redenção, pieguice, mera "cuzice"? Sim, tudo isso é um drama.

Eu sintetizo o drama como uma "narrativa de uma história", de um laço que nos une; que mesmo residido na mais pura fantasia, ainda e sempre será, sobretudo realizada e composta por NÓS. As diferenças da nossa essência são os reais e mais belos laços. E grande parte da boas histórias do cinema e da televisão que são capazes de nos encantar todos os dias, residem no desejo universal de em algum momento nos enxergarmos na tela, e quando essa história alcança esse objetivo, crava o ponto final do que faz uma boa história ser uma boa história carregada de sinceridade e de alma.

Saca aquela parte do segundo filme dos Vingadores: Era de Ultron em que o Gavião Arqueiro reencontra sua família no chalé? Naquele meio de "tiros, porradas e bombas", muito mais do que um refúgio para a trupe de heróis, o chalé significou simultaneamente para o Gavião e para todos os outros heróis, uma reflexão sobre conflitos e objetivos em um momento de paz e leveza com as origens que os conectam na mútua busca pelo abraço de alguém amado. Um respiro mais que necessário representado no abraço que Clint Barton deu em sua esposa grávida; um clichê que, com a devida sensibilidade, é visto como um recorte mais que necessário naquela história, com o objetivo de mostrar a nós que Clint é talvez o maior herói de todos por ser um mero mortal que, entre medos e temores, abre um "espacinho" pra salvar o mundo.

Não é diferente daquele pai que sai às seis da manhã e volta às onze da noite pra casa e ainda encontra um tempinho pra ficar com seus filhos, ou aquela mãe que em meio ao trabalho e tarefas domésticas, ainda encontra disposição pra ser voluntária em um trabalho social próximo de casa. Seja um eterno apaixonado que coloca sua esposa em primeiro lugar ou um velho amargurado com a eterna saudade de quem se foi, agarrando-se nos últimos respiros de felicidade. Todos esses heroicos pedaços de mundo compõem o que chamamos de vida.
 

"Abra suas janelas. Aumente a música. Deixe o cabelo crescer. Deixe que alguém arrume sua cama." 

William Hill (Ron Cephas Jones) - Memphis (S01E16)


Sintetizando ao máximo, a crônica é a poesia do dia-a-dia, o recorte do cotidiano. Talvez esse mais belo ato da comunicação seja a definição precisa da dramaturgia aplicada em "This Is Us".

Neste momento de grandiloquência recheada de super-heróis, apocalipses, remakes e revivals, e de roteiros adaptados e reciclados, "This Is Us" representa esse respiro bem-vindo ao nos relembrar de como a caminhada até a padaria com sua filha, sobrinha ou amigo(a) pode sim ser parte de uma boa história. Um momento mais que necessário, nos relembrando que dramas não precisam só serem construídos somente ao redor do pessimismo e da tragédia de pessoas arrasadas pelas escolhas erradas, mas como tais catarses podem serem feitas também através de ternas lembranças e da simplicidade do que nos faz sermos quem somos. Em que o ato de escrever, de narrar, de comunicar a beleza contida nessas rotinas tediosas entre pães e ônibus, nos conectam com aquela pessoa a quem você direciona essas palavras, ajudando-a também a se dar conta de quanto tais momentos mundanos são tão importantes na formação de um caráter.

Com uma mão delicada e poderosa, o também produtor executivo Dan Fogelman criou "This Is Us" partindo desta simplicidade retornando ao cerne de nossa existência que é a família, que por mais distante ou desconhecida que seja, bem ou mal, é uma peça na construção de nós mesmos. E brincando com a conexão entre as pessoas, no início a série fornece estatisticamente a resposta pra pergunta que quase ninguém tem a curiosidade em saber, até que se dá de cara com o fato: quantas pessoas fazem aniversário no mesmo dia?
 

"Então, pintei isso pois acho que a peça é sobre a vida, sabe? E a vida é cheia de cores e cada um vem e adiciona mais cor a pintura. Mesmo que não seja muito grande, vocês veem que a pintura continua para sempre. Em cada direção. Tipo, para o infinito, sabem? Porque a vida é meio assim, certo?! 

É bem louco que a 100 anos atrás, um cara que nunca conheci veio para esse país com uma mala, teve um filho, que teve um filho, que me teve. Quando pintava, pensei: talvez essa seja a parte dele, e aqui embaixo seja a minha parte da pintura. Pensei: e se todos estivermos na pintura toda? E se estávamos na pintura antes de nascer? Se estivermos nela depois de morrer?! Se as cores que continuamos adicionando, continuarem a ficar uma em cima da outra até que um dia as cores não tenham mais diferença? Somos uma coisa só. Uma pintura. 

Meu pai não está mais entre a gente, ele não está vivo, mas está com a gente. Tudo se encaixa de alguma forma e mesmo que vocês não entendam ainda, as pessoas que amamos morrerão em nossas vidas. No futuro. Talvez amanhã, talvez daqui a alguns anos... É bem bonito se for pensar que só porque alguém morre, não podendo mais vê-los ou falar com eles, signifique que não estejam na pintura. Acho que esse é o intuito da coisa... Não existe morte. Não tem você, ou eu, ou eles. Somos apenas nós. Essa coisa desleixada, selvagem, colorida e mágica que não tem começo e nem fim. Isso bem aqui... Acho que somos nós." 

Kevin Pearson (Justin Hartley) - The Game Plan (S01E05)


Realmente "o mundo é pequeno", como diria o filósofo, o seu amigo, e sua avó. As palavras e aprendizados nos unem, mesmo que nunca nos conheçamos. E nesta pequenez comparada por vezes a uma noz, a simplicidade de uma boa história acaba sendo simplesmente o ato de recontar temas universais, tão comuns, mas igualmente tão capazes de conectarem eu e você em torno de uma mesma lágrima ou risada.

Isso não é niilismo barato.

Esse tipo de tema é recorrente em novelas. Pais, filhos, maridos e esposas. Pessoas. Gente se relacionando e lidando com a imprevisibilidade da vida lotada de reencontros e despedidas. Realmente não há nada mais clichê numa história, mas "This Is Us" é uma verdadeira aula de como recontar sobre tudo isso de forma emocionante, em que invariavelmente em algum momento da sua vida você irá se conectar também deixando rolar algumas VÁRIAS lágrimas em seu rosto, pois é desse coração gigantesco que somos feitos.

Constantemente "This Is Us" cruza o passado e presente pra contar sobre o carro, a casa, aquela parede, o caderno, o passeio no supermercado ou na sorveteria. Reconta sobre lembranças. Relembra que assim como absolutamente todos aqueles personagens, nós somos feitos por escolhas e por momentos de alegria, de saudade e de dor, entre os erros e os acertos, ao tentarmos sermos melhores diante do mais puro acaso.

Nestas duas brilhantes temporadas, a série é feita de atuações e de personagens igualmente cativantes, para nos relembrar do mais simples, que em contrapartida, é também o mais complicado: em como devemos transformar os demônios em meros flashbacks do passado para viver o que há de mais mundano. O hoje. De como em tempos de aversão a diversas formas de amor, sempre teremos a quem recorrer quando não aguentamos mais. Ou parafraseando o Dr. Katowski:

"Não há limão tao azedo da qual não se possa fazer uma limonada." 

- Pilot (S01E01)

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André Prado
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