RESENHA SÉRIE: SANTA CLARITA DIET
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RESENHA SÉRIE: SANTA CLARITA DIET

*estou cobrindo as duas primeiras temporadas.

O filósofo francês Henri Bergson em seu ensaio chamado "o Riso" nos diz que "o absurdo cômico é da mesma natureza dos sonhos", e divide seu teorema em três níveis: 1. "No riso, há o relaxamento natural das regras de raciocínio". 2. E neste relaxamento o espírito adormece, e assim nos deixamos ser enganados a ponto de apenas registrar os sons e não mais o sentidos; algo lógico, mas que nos repousa do trabalho intelectual. 3. Por fim, o absurdo cômico que é de natureza igual a "demência" natural do sonho. Resumindo: "no cômico, como no sonho, o relaxamento do raciocínio faz com que aceitemos como verdadeiras lógicas falsas".

Entendo que entender a concepção do cômico é fundamental para apreciar a leveza da proposta de "Santa Clarita Diet". O que seria mais absurdo do que ser casado com um zumbi?

Evidentemente essa palavra é utilizada cuidadosamente no roteiro, já que a transformação de Sheila Hammond (Drew Barrymore) em uma não caracteriza o que conhecemos como tal. Então a sacada do showrunner Victor Fresco (Alf) é justamente convidar o espectador a se desprender da mitologia, ao mesmo tempo que apela pra desconstrução da própria morte. 

Sheila e Joel Hammond (Timothy Olyphant) são um casal de corretores da pacata Santa Clarita, subúrbio de Los Angeles, e que vivem a representação da tranquilidade que seria rotulada como um casamento de margarina. Tem uma filha, Abby (Liv Hewson), se dão bem, e fazem tudo juntos desde o colegial. Blá. Só que tudo muda quando Sheila passa mal e vomita o equivalente a uma vida inteira - inclusive seu coração reduzido a uma bolinha de carne. Porém ela "morreu, mas passa bem". Sheila acorda, Timothy fica aliviado, mas ela vira uma morta-viva bem incomum. 

Bom, como bem explica o vizinho nerd Eric Bemis (Skyler Gisondo), Sheila agora é controlada pelo que Freud chamou de id, o "componente da personalidade composto pela nossa energia inconsciente que trabalha pra satisfazer seus impulsos básicos". Mas contrapondo com aquele morto-vivo devorador de cérebros que conhecemos. Sheila acordou bem mais disposta e ativa, ironicamente se sentindo muito mais viva que antes, só que o problema é que tudo isso vem com uma nova alimentação: carne humana. 

A química da dupla Drew e Olyphant é afiadíssima na ideia de mostrar como absolutamente ninguém ali, nem ela, nem Joel, estão preparados para a situação de tornar a absurda situação de matar e comer seres humanos não tão absurda assim. Esse é o ponto central da série e sua grande sacada é se limitar a isso - como Bergson propôs em seu ensaio: do riso sempre residir no confronto entre o real x incomum. Victor Fresco entendeu assim também e trouxe uma oxigenação que a mitologia dos mortos-vivos (zumbis, que seja) tanto precisava após o estrondo x banalização que "The Walking Dead" deu a alguns anos atrás.

No fundo daquele desespero todo que a situação impõe, Joel é apenas um marido amoroso tentando entender a condição da sua esposa. E Olyphant é impagável sendo a ligação humana como "o surtado vizinho suspeito de sorriso nervoso", ajudando a esposa com essa nova dieta mortal enquanto tenta inutilmente levar uma vida familiar. Sobretudo em relação a sua filha Abby, a filha adolescente que é impactada diretamente pelo novo e impulsivo estilo de vida de sua mãe, que no fundo, "morreu pra voltar à vida". E nessa linha de pensamento, "Santa Clarita Diet" sustenta-se em rir do absurdo e também um pouco mais de nossas vidas ao utilizar do cômico do que é ser um morto-vivo. 

Não é mera coincidência George A. Romero ter colocado os seus zumbis dentro de um shopping: ser um "vivo-morto" é muitas vezes o que chamamos de... vida. 

Por "Santa Clarita Diet" NUNCA se levar em sério, mesmo nos momentos da segunda temporada em que sua própria mitologia desenvolve, tem-se a certeza que independente de seu estado de espírito, a piada SEMPRE vai funcionar; sendo assim aquela escolha certeira de série leve e rápida para ver numa ocasião preguiçosa no amplo catálogo da Netflix. Um entretenimento mais que bem humorado sem reflexões, moralidade e etc; claro que sem esquecer das doses cavalares de sangue e tripas que tanto enoja certas pessoas. =D

PS: De acordo com a Netflix, a terceira temporada de "Santa Clarita Diet" será em 2019 (inclusive, com um belo plot). Aguardemos!

André Prado
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