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RESENHA SÉRIE: PHILIP K. DICK'S ELECTRIC DREAMS #10 - KILL ALL OTHERS

RESENHA SÉRIE: PHILIP K. DICK'S ELECTRIC DREAMS #10 - KILL ALL OTHERS

Os contos de Philip K. Dick compilados no livro "Electric Dreams" e trazidos para a televisão graças a Channel 4 (e Amazon no streaming), contém diversas características semelhantes com filmes como "O Show de Truman" e "Matrix", sendo a principal delas: a ideia de que há algo de muito errado com o mundo em que vivemos, e no caso mais específico desse episódio, de que isto é algo muito perigoso e mortal.

No ano de 2054, como esperamos, nossa realidade é dominada por um sistema de transporte totalmente autônomo, casas populares funcionais por voz, telas enormes em todas as partes, e propagandas invasivas holográficas chegando ao ponto de invadir até nosso banheiro. Nada muito surpreendente. Mas também certas coisas nunca mudarão.

Philbert Noyce (Mel Rodriguez) é um típico morador do subúrbio que acorda cedo todos os dias, escova os dentes, toma o seu metrô e bate ponto no trabalho (como um neandertal, já que ele podia comprar um carro autônomo que todo mundo tem), uma espécie de metalúrgica automatizada em Mexican. Algo como se o sonho dos EUA tivesse se tornado realidade com a América virando um só país, uma meganação unipartidária que numa propaganda política bem esperta traz o "can = podemos" em seu nome, transformando o nome da nação em um grito nacionalista.

O conto escrito em dezembro de 1953, dá origem a aquele tipo de episódio que dá aquela coceirinha incômoda por demonstrar que o homem anda em círculos ao longo da história, apenas ressignificando certos atos. 

A ideia de "Kill All Others" é bem clara como potencial crítica, há didatismo e simplicidade decepcionando aqueles que queriam gastar neurônios destrinchando possíveis significados - algo que está na moda. E diria que o sabor, para alguns, amargo de "Electric Dreams", está em somente assistir o que está lhe sendo mostrado, não discutindo sobre um vislumbre tecnológico de um futuro próximo, mas como a tal fantasia é inserida em uma narrativa sobre o nosso presente - cada vez mais pessimista.

Em casa Philbert, assistindo inconformado ao lado da esposa uma dessa série de entrevistas de uma Candidata (Vera Farmiga) "eleita democraticamente" pelo sistema de Mexican, entre afirmações de que só ela pode comandar esse megapaís, escuta subliminarmente ela dizer com todas as letras "Kill All Others" (mate todos os outros). Chocado, ele parece ser o único ao ter escutado essa mensagem, mas não demora muito para diversos outdoors com esses absurdos dizeres invadirem a cidade. Só que para o seu desespero ninguém parece ligar para esse absurdo; nem seus amigos, nem sua mulher. Todos dão de ombros dizendo que é um "exagero" de propaganda. É quando Philbert se torna "os outros".E lembre-se, você pode ser "os outros". Como o saudoso V de "V de Vingança" já dizia: "ideias são à prova de balas".

Dizem que "quem não deve não teme", mas a insana claustrofobia governamental vivida pelo pobre Philbert, nos lembra dos caminhos perigosos que a naturalização de certos atos, como a ausência da privacidade através da coleta de dados pessoais, da simples defesa a uma pessoa espancada na rua simplesmente por ser rotulada como "outra", ou de mesmo certas coisas serem ditas e propagadas em rede nacional (oi Bolsonaro) por governantes, são capazes de arruinar o que ainda nos faz humanos. 

O episódio é um pesadelo que nos relembra do perigoso be-a-bá da combinação de um Facebook ilimitado mais um nacionalismo exacerbado, que de fala mansa e sorrateira, usa de uma vaga e enraivecida democracia para justificar certos atos como o assassinato para limpar quem "não são os seus". Além de claro, enfatizar como discursos e propagandas são utilizadas para cegar aqueles entorpecidos pelo sistema, guardando diversas semelhanças com Black Mirror e sua visão sobre os males da tecnologia. 

As outras resenhas do Descafeinado sobre "Electric Dreams" (em ordem de exibição na Amazon):


E01. The F Maker - O totalitarismo de PKD
E02. The Impossible Planet - Os sonhos para nos manter vivos
E03. The Commuter - Há um lugar melhor para nós?
E04. Crazy Diamond - Talvez tenhamos que olhar para trás
E05. Real Life - O peso das nossas lembranças
E06. Human Is - Coração e otimismo

Clube Minha Série
André Prado
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