RESENHA SÉRIE: PHILIP K. DICK'S ELECTRIC DREAM - THE COMMUTER
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RESENHA SÉRIE: PHILIP K. DICK'S ELECTRIC DREAM - THE COMMUTER

A tragédia humana reside em criar realidades não palpáveis, o irreal, onde a fantasia nos permite idealizar um futuro melhor ou sobrevoar o presente. O "e se", extremamente nocivo, em contrapartida é exatamente o que nos move no trem da vida. Sem ele, a imaginação não é saboreada; sem ele acompanhado da verdade, nós podemos fugir, mas não poderemos alcançar. Sem aceitar o "se", não temos objetivos, não podemos aceitar, não podemos lidar e nem seguir adiante. Devemos observar e não apenas ver.

Nós somos apenas passageiros, como o supervisor Ed Jacobson (Timothy Spall), que vive com esse "se" na mente.

Empregado numa estação de trem londrina, Ed é um mero homem assalariado de sorrisos falsos durante o dia, que ao final do expediente deseja mais do que tudo voltar pra casa após um longo dia de trabalho. Como Linda (Tuppence Middleton), que em um belo dia aparece no guichê lhe dizendo que deseja comprar um bilhete para Macon Heights.

O problema é que esse lugar não existe, e Ed quando se dá conta disso vê que a mulher simplesmente desapareceu.

Ed estranha e continua com sua vida mundana; amando sua mulher e convivendo com seu filho mentalmente instável, com problemas que ele não quer vivenciar. Uma realidade difícil apesar de todo amor, uma realidade da qual ele queria que lá no fundo fosse diferente.

Essa é a chave da jornada comovente de Philip K. Dick.

Como uma alegoria pro seu desejo, Linda continua a aparecer pra ele em diversos lugares e instigado por isso, ele toma esse trem para a inexistente de Macon Heights. Exatamente 28 minutos após embarcar, como Linda descreveu o trajeto. E o que é inexistente, não significa necessariamente que não é real.

Caminhando para a cidade idílica de Macon Heights, Ed sente que lá encontrou seu lugar, um alívio; o trem em que se tornou passageiro, encontrou aquilo que ele tanto desejava para se sentir feliz. Aqueles sorrisos e aquela cordialidade lhe contagiavam.

Porém, como se fosse um feitiço no tempo, as coisas sempre acontecem da mesma forma em Macon Heights tal qual um problema da qual queremos fugir. Ed estava viciado no chá e no ar de lá, ele precisava saber se aquele lugar realmente existia ou foi idealizado. Voltar para aquela cidade, como alertado pela garçonete que sempre lhe servia bolo, era viciante. Era inebriante sentir o que ele não sentia mais ter dentro de si.

A realidade palpável era que ele conheceu sua esposa Mary (Rebecca Manley) numa estação de trem, ele trabalhava lá e ela era passageira. Tiveram um filho, e juntamente com o amor que Ed sentia, seu filho Sam (Anthony Boyle) também trouxe percalços aos dois devido à sua doença. A realidade doía, ainda mais quando Mary lhe revelou que Ed e seus sorrisos falsos assustavam a Mary mais do que Sam e sua instabilidade emocional. E essas palavras eram mais doloridas pra ele que qualquer surto de violência do seu filho.

O amor não representa tudo, como o "saco vazio não para em pé"; mas a verdade é que qualquer tipo de amor não sobrevive sem a verdade, com suas qualidades e defeitos. O problema de Ed era não aceitar que o tempo e a vida caminhavam de mãos dadas.

Sam desaparece quando ele volta de Macon Heights a primeira vez. Ele se sentia verdadeiramente feliz ao sair de lá, mas ao voltar pra casa, como Linda deseja quando lhe pede uma passagem, percebe que sua vida não seria a mesma sem os parcos porém verdadeiros momentos de alegria que tinha quando tudo estava ruim. Sem o jazz que seu filho gostava.

Em algum momento os dois perderam a conexão que tinham, e a catarse acontece quando Linda aponta que ele via Sam na criança errada; quando viu que também em algum momento perdeu uma conexão com Mary, deixando de ser presente por causa do seu trabalho que ele transformou em escape; e que ao voltar pra casa e ver seu sonho se transformar em realidade, percebeu ali que sonhar não é o mesmo que querer. É o que ele grita a Linda e ao espectador. Seu filho ainda perturbado e perdido, feliz e na frente dele, era muito mais importante que o desejo que sentia de não tê-lo. Do "se".

Transparecido em seu olhar, Ed entendeu que é preciso abraçar a tristeza e a dificuldade se quiser seguir em frente e lutar por uma realidade que lhe seja melhor, para todos que ama, ele, Mary e Sam. Ao final de "The Commuter" sentimos algo genuíno e profundo, sobre a compreensão do trauma e do quanto isso pode ser significativo na vida de alguém, passando a escolher não ignorar o que pode ainda ser impedido. As coisas podem mudar sim; não ao que poderia ser, mas ao que poderá ser. Pois como dizem, a vida é uma questão de escolha.

Refletindo sobre a natureza da realidade, "The Commuter" espiritualmente nos faz refletir sobre nós mesmos e em como devemos desejar voltar pra casa após um dia de trabalho. Em como não devemos deixar Macon Heights existir nas nossas vidas, abrigando nossos temores dos problemas.

Clube Minha Série
André Prado
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