RESENHA SÉRIE: PHILIP K. DICK'S ELECTRIC DREAMS - CRAZY DIAMOND
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RESENHA SÉRIE: PHILIP K. DICK'S ELECTRIC DREAMS - CRAZY DIAMOND

A rivalidade Netflix e Amazon no streaming - e acredito que seja qual for a comparação que a gente faça - infla a expectativa e por consequência cega também. Para isso é importante a ponderação. A ânsia de ter uma opinião ou achar isso ou aquilo melhor, limita o espectador a ficar no espectro vago do achismo e até na obrigação de gostar disso em detrimento daquilo, ou até mesmo o limando a capacidade de compreensão do mesmo. Não é chamar ninguém de burro. Mas é óbvio que isso acontece com "Electric Dream" em comparação a maior aceitação da quarta temporada de "Black Mirror", devido as duas serem antologias e muito por culpa da própria Amazon em anunciar a primeira como contraponto a segunda prejudicando diretamente na avaliação da antologia de PKD, sendo que, colocando os devidos "pingos no I's", uma não tem muito a ver com a outra exceto a ficção científica - um gênero ilimitado por si só. 

A diferença entre as duas séries fica ainda mais evidente ainda em "Crazy Diamond", aonde os "sonhos elétricos" de PKD tomam conta da tela.

Pode parecer repetitivo bater nessa tecla, mas para entender "Electric Dream" é fundamental entender não só o conto em si, mas o contexto que cercava o autor quando ele escreveu esses contos. Então se em "Blade Runner" ele já nos alertava da importância das lembranças e dos sonhos na constituição do que é ser humano, no conto "Crazy Diamond" ele calca-se fundamentalmente na abstração, deixando a quem lê e vê a lição (relembrando) de que é há muito mais do que a vã filosofia do certo e errado nos diz.

Ed Morris (Steve Buscemi) é casado com Sally (Julia Davis), moram juntos em um cenário paradisíaco e futurista, e enquanto Sally cuida da casa, Ed é um engenheiro que produz uma espécie de "consciências quânticas". 

Não sabemos aonde estamos, e em que época estamos; a que ponto nossa tecnologia evoluiu e até mesmo o que do que o episódio se trata exatamente, restando assim cores e sensações como os nossos guias. E o que domina, são as cores fortes e contrastadas, dignas de um wallpaper nativo do Windows; uma realidade tão estranha e indecifrável como uma híbrida entre mulher e porco (Joanna Scanlan) pode ser. Então repetindo. Cabe a nós pinçarmos as peças e as interpretar da melhor forma possível. 

E é isso.

Nada fica claro, mas essas consciências quânticas que Ed fabrica e gerencia, é o que mantém a humanidade viva, não sabemos se na Terra ou não, mas parece ser num cenário totalitário aonde todos parecem relegados a funções limitadas e bem estabelecidas, seja no trabalho e até no cultivo de alimentos. Mas é tudo especulação. A chave é quando a "androide" (ou seria uma capa de "Altered Carbon"?) Jill (Sidse Babett Knudsen) cruza seu caminho em um sonho como uma vendedora de seguros, revelando depois que na verdade está morrendo e precisa de Ed para sobreviver. 

Ao contrário de Sally que está inerte e satisfeita aonde está, mesmo com todo o mistério, Jill é a motivação que Ted precisa para abandonar o que conhece e tentar ver o limite do mundo - mesmo sem este saber aonde quer ir. 

Quando Ted sobe em seu barco, se vê numa condição de estrangeiro e exilado. Ainda envoltos naquela incerteza nossa do que é sonho e realidade, vemos Ted cair no mar e renascer encharcado abraçado a um disco de vinil - talvez do Pink Floyd, se lembrarmos que eles tem uma música de mesmo nome: "Shine on Your Crazy Diamond". 

É como se a música guardada naquele vinil, fosse a salvação de um tempo distante e esquecido que ele quer reviver. Uma nostalgia tão indeterminada quando os sonhos podem ser.

Tudo em "Crazy Diamond" nos leva a ter denominações vagas e pessoais. Nesse mundo abstrato, Ted está em um verdadeiro "Show de Truman", só que a diferença para Jim Carrey, é que o personagem de Buscemi pode até saber para aonde é, mas sonha em não saber o que é. 

Na verdade, a única coisa que Ted sabe é o que deseja em seu âmago. E é aí que aplicando a nós mesmos, essa história começa a fazer sentido, e "Crazy Diamond" em seu final, no final das contas se mostra essencialmente como uma singela e típica abstração de nossos sonhos incertos; da tragédia pós-moderna da nostalgia, e da saudade do que não vivemos. 

 

André Prado
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