RESENHA SÉRIE: DESVENTURAS EM SÉRIE (2ª TEMPORADA)
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RESENHA SÉRIE: DESVENTURAS EM SÉRIE (2ª TEMPORADA)

Não soltei nenhum spoiler da 2a temporada de Desventuras em Série aqui (e se soltei, acredito que não fará diferença, pois todos sabem que só ocorrerão desgraças). Mas para a total compreensão do texto, é necessário ter assistido a temporada inteira para identificar as referências de cada episódio que deixei no texto. Portanto #ficadica.

Na trama de Lemony ou Daniel Handler (seu verdadeiro nome) escrita entre 1999 e 2016 e adaptada integralmente pela Netflix, somos apresentados a uma obra lotada de sarcasmo e ironia. Não é atoa que o Sr. Poe (K. Todd Freeman) tem aquela irritante tosse. O mundo adulto lotado de infortúnios para aquelas pobres crianças é como se fosse uma "grande tosse", uma gigantesca metalinguagem para o que chamamos de ignorância. Uma verdadeira bisbórria (leia-se: destituída de valor) que em todo episódio o narrador Lemony Snicket (Patrick Warburton) nos alerta para não olhar. Já que para um adulto "é melhor ignorar o que tem de errado ao seu redor", principalmente se for uma criança te alertando disso. Não é?

E é realmente melhor não olhar para os infortúnios vividos pelos Órfãos Baudelaire, Violet (Malina Weissman), Klaus (Loius Hynes) e Sunny (Presley Smith). São aterradores. A mídia, a futilidade, a burocracia, o sadismo, o espetáculo... Cada episódio traz seu Comentário Social Crítico particular indispensável e recheado pelo absurdo; dos "ins" e "outs" da sociedade burocrata que rege todo tipo de lei para controlar a si mesma, promovendo reality shows dos mais absurdos e inúteis para seu entretenimento. Felizes sem ler jornais, ignorando mazelas e injustiças ao seu redor. Sem gargalhadas, mas com sorrisos amarelos.

Então tape os olhos, e não olhe. Mas seja curioso, e observe.

A adaptação da Netflix causa amor e ódio devido a sua estrutura repetitiva, mas ganha um imenso charme, especialmente nesta segunda temporada, à medida em que ela ao mesmo tempo se distancia daquele ponto abordado no filme de 2004 - e das suas injustas comparações - e também daquele natural esquema que esperamos de "órfãos - tutores - Olaf - shit happens - Sr. Poe" para uma intricada trama que revela, que sobre Olaf, há muito mais que a fortuna.

Assistir as Desventuras em Série desses irmãos frente ao implacável Conde Olaf (Neil Patrick Harris) é como assistir a um desenho animado, e é abraçando essa linha de pensamento que a série passa a ser cada vez mais deliciosa em seu texto esperto e lotado de metalinguagem. A burrice aqui dos "adúlteros" diante aos seus MAIS QUE óbvios disfarces são propositais, nos entregando aquela angústia devido a termos que presenciar o literal trabalho de Sísifo (leia-se aqui: corrida em círculos) que os Baudelaire são fadados a viver.

Lemony tinha razão, não devemos olhar. Mas vamos relevar dessa vez pra nos atentar para as suas inúmeras referências e detalhes.

Para o espectador, é um deleite observar o figurino da série, apesar de sua escura fotografia - creio que proposital, e as suas referências que a cada episódio (a que mesclou rapidamente "IT" a "O Chamado", por exemplo) são excelentes, assim como o anacronismo da série que brinca de streaminga máquinas de escrever sem perder o compasso de uma série que sabe não se levar a sério. E por trás dessas inúmeras referências e detalhes postas em seus episódios, convenhamos que é um verdadeiro sadismo nosso assistir a esses infortúnios vividos por essas pobres crianças, torcendo pra que algum ser naquela série as ajude sem morrer em seguida... Enfim.

Bom, todos queremos finais felizes, porém, é a tristeza que chama mais atenção; por que então as Desventuras dos irmãos Baudelaire deveriam terminar, não é? Assim como o ódio e o amor são sentimentos simultaneamente causados no espectador devido a estrutura propositalmente repetitiva da série, o que se sente é que, como a felicidade e a vontade de ser bondoso, o amor demonstrado pelos irmãos é muito maior que qualquer desprezo que eu poderia sentir pela suas Desventuras. Apesar que é de se admitir que o ódio desmedido que sentimos, semelhante ao constante desprezo de um Conde Olaf sobre os Órfãos, é também delicioso de se ter, afinal, essa Desventura toda no final das contas revela que o mundo é extremamente burro e non-sense. Por vezes condescendente demais com as nossas agruras, seja por causa das leis, seja por um bando de cantores supostamente "Combatentes pela Saúde do Cidadão". Diria que similar a uma tosse irritante do Sr. Poe, constante como as trágicas situações vividas pelos irmãos Baudelaire.

Gancho significa "haste de metal curvada", mas também pode significar "uma história que termina em aberto que teremos que aguardar um desfecho".

Prometida para três temporadas, essa rica e infeliz produção da Netflix (uma das suas melhores) "perfeita para agradar adultos e crianças de todas as idades" - quem mais ouviu o Olaf dizer isso ao ouvido? - está rigorosamente em seu meio. Em outras palavras, a história dos irmãos Baudelaire terá logo um fim, o fim chamado "O Fim". Então se você tem outra série pra ver ou qualquer outra coisa pra fazer, você está oficialmente desobrigado de ver essa Desventura; mas se por outro lado você quer saber do desfecho horrível que os irmãos Baudelaire aguardam na beira do penhasco, Lemony e eu te alertamos:

Look away!

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André Prado
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