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RESENHA SÉRIE: COLONY (2016-2018)

RESENHA SÉRIE: COLONY (2016-2018)

Cobrindo propositalmente a primeira temporada.

"O homem é o lobo do homem". Você já deve ter lido ou ouvido em alguma lugar essa frase de Thomas Hobbes.

Filósofo inglês do século XVI, Hobbes viveu num tempo conturbado para a coroa de seu país. Entre 1642 e 1651 a Grã-Bretanha sofreu com uma guerra civil, que tinha como pano de fundo um movimento liberal que defendia a diminuição do poder da coroa inglesa - e que nas décadas seguintes chegaria até a França. Durante esse período, Hobbes se exilou em Paris e lá escreveu "O Leviatã" defendendo fervorosamente a monarquia como uma espécie de contrato social que era necessário a natureza humana. Para ele, a Guerra Civil era o final do almejado "sonho pela liberdade". A eterna "luta de todos contra todos" deixava claro que, cedo ou tarde, o fato dos homens serem incapazes de viver em sociedade viria à tona. E o "atropelo histórico" causado pelo consequente confronto, só poderia ser impedido por um governo forte que suprima a ganância e o egoísmo natural por uma série de leis irrevogáveis.

Série original da USA Network e disponível na Netflix, "Colony" trabalha em cima disso mesclando, com méritos, o que uma invasão alienígena naturalmente faria com os movimentos políticos-sociais, só que subvertendo esse contexto conhecido por nós: em "Colony", não somos nós os mocinhos da história, mas (de certa forma) os alienígenas - agora RAPs. 

De cenário uma Los Angeles ensolarada e uma sensação de normalidade inquietante, sai o confronto armado de humanos x aliens, entra uma guerra híbrida que aproveita-se da própria ferramentas, tanto políticas como publicitárias, para explorar as piores fraquezas dos seres humanos dando voz ao que há de pior em nós. 

Enquanto drones mortais sobrevoam o céu, sendo apenas o necessário auxílio ao governo autoritário das colônias determinadas pelos muros, os hospedeiros usam do que já é conhecido para continuar o jogo de "luta do homem contra o homem"; transformando toda a humanidade nos milhões de negros colonizados no século 19, mas usando do luxo e prestígio para seduzir a elite, classificando e segregando os humanos nas "Green Zones" e "Factorys" da mesma forma que ricos e pobres nos tempos atuais. Assim, paradoxalmente tornando-nos uma espécie finalmente dominada pelas próprias armas que por séculos a elite humana usou para explorar seus semelhantes.

Ambição, traição, (as já citadas) ganância e egoísmo. As famosas batalhas de extermínio que os agora "hospedeiros" travavam em outras narrativas virtuosas (pretensiosamente liderada por americanos - isso quando não os microrganismos ex machina faziam esse trabalho, como em "Guerra dos Mundos"), deram lugar a um poder silencioso que usa da clara amoralidade humana diante do medo através dos "capacetes vermelhos" da Força de Segurança Nacional e de um sistema moldado para a conquista de corações e mentes que usa da ambição humana, mas principalmente dos 4 itens indispensáveis para a conquista de qualquer país e posteriormente do estabelecimento de um Governo autoritário:

- A justiça: são criados tribunais simulados pelo Governador geral e transmitidos ao vivo para a população;

- A religião: a invasão é tratada como "a salvação do Juízo Final" e uma segunda vinda de Jesus para premiar os bons e expurgar os maus;

- A educação: agora contando os princípios da História humana do ponto de vista dos hospedeiros, para uma nova geração já acostumada a aquele ambiente;

- A propaganda: produção de conteúdo simbológico e cultural (como a sensação de segurança).

Essa hipótese propõe a ideia de que os consumidores de notícias tendem a considerar mais importantes os assuntos que são veiculados com maior destaque na cobertura jornalística (incluindo tanto meios impressos quanto eletrônicos). Assim, no Agenda-setting, as notícias veiculadas na imprensa, se não necessariamente determinam o que as pessoas pensam sobre determinado assunto, são bem-sucedidas em fazer com que o público pense e fale sobre um determinado assunto, e não sobre outros. (Fonte: Wikipédia / Imagem: Cinegnose)

Por fim, "Colony" é uma distopia clara sobre os tempos atuais em que os muros se desenham em bolhas de informação. Os céus são ensolarados, mas a narrativa é cinzenta; não sabemos bem quem são os mocinhos e os bandidos da história nessa narrativa sem esperança que torna os humanos impiedosos com eles mesmos, incutindo-lhes a ideia de fazer um sacrifício por um bem maior. A tão já explorada última fraqueza humana, e mesma linha de pensamento que qualquer soldado da SS tinha na época de: estar fazendo apenas seu trabalho. É o homem sendo o lobo do próprio homem, como Hobbes dizia.

PS: INFELIZMENTE a série foi cancelada em sua terceira temporada - que chegará ao seu final essa semana (dia 25). Além de rezar pra que o gancho de uma temporada pra outra não seja abissal e que algum serviço de streaming salve a série (algo improvável já que a série não é conhecida no grande público), eu só tenho a lamentar pelo go$to atual da televisão norte-americana.

 

Clube Minha Série
André Prado
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