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RESENHA FILME: ANIQUILAÇÃO

RESENHA FILME: ANIQUILAÇÃO

Quando terminou "Aniquilação", a sensação que tive ao seu final foi de estranheza. Poucas vezes percebi que um filme me fazer sentir tão pouco e ao mesmo tempo tanta coisa, fiquei intrigado, um verdadeiro nó envolto na indiferença que me fez ir atrás de críticas e resenhas que me ajudassem a entender o que se passou, como um amigo que, como eu, também estivesse curioso com o filme.

Partindo deste ponto, é interessante que tudo hoje em dia seja tão explicado, didático, sedento e preparado pra vloggers que se dedicam a destrinchar, achando significados e easter-eggs, muitas vezes esquecendo que talvez seja melhor apreciar a obra como ela é. "Rick and Morty" é um belo exemplo do que estou falando.

Claro, você pode argumentar que o fato de eu me sentir estranho após a assistir a "Aniquilação" é uma justificativa do quanto ele é... ruim. Sim, ele tem pontos ruins, como praticamente qualquer roteiro que nos é enfiados goela abaixo hoje em dia. Só que entendo que o longa vai muito além de defeitos e qualidades. "Aniquilação" tem méritos. E penso que como o gênero ficção científica sendo a grande metáfora que é, Alex Garland tenha compreendido exatamente o que o livro de Jeff Vandermeer quis passar; sendo assim, se formos ver a história num todo, os personagens, efeitos e locações tenham que ser realmente vistos como pormenores diante longa "Aniquilação" em si. Talvez seja isso o que tenha sentido.

Também, vamos convir que é uma tarefa estúpida analisar a arte, e acho que não é por menos que Garland tenha confessado que escreveu "Aniquilação" como um sonho sem reler o livro antes de adaptá-lo na tela grande. Muito mais que basear, Garland sobretudo quis transmitir o que sentiu, e na minha interpretação isso é um grande ponto para ele e para o filme. Aliás, "Aniquilação" é isso também, e é um ponto fora da curva.

Roteirizado pelo próprio Garland, o filme é movido por Lena (Natalie Portman). Após 12 meses sem notícias e já descrente que seu marido Kane (Oscar Isaac) esteja vivo, ele reaparece na porta do seu quarto tão sem respostas quanto a deixou. Quando este passa mal, a psicóloga do governo Dra. Ventress (Jennifer Jason-Leigh) literalmente os arranca da ambulância que estavam, e ela lhe conta que Kane estava em uma missão secreta na chamada Área X e que ele foi o único sobrevivente. Nem a Dra., nem ninguém, sabe o que aconteceu ou o que é esse tal lugar. Então, como não deu certo com soldados, a Dra. e mais três especialistas vão para essa Área X descobrir o que é aquele lugar estranho.

Lena já não reconhecendo Kane e intrigada por esse lugar, a bióloga resolve ir junto com o grupo nessa "missão suicida". E a primeira coisa que você se pergunta é: porquê?

É o que "Aniquilação" vai respondendo em suas cenas e seus breves diálogos, que antes de a aniquilação ser da natureza ou do planeta, é sobretudo de nós mesmos, dos nossos sonhos em que não sabemos mais quem somos e o que é real. De Kane inicialmente, e de Lena ao aceitar uma missão como essa; e de como temos a tendência de nos sabotar ao longo da vida. E para entender a urgência do assunto no filme, é importante se atentar para um breve diálogo entre a Dra Ventress e Lena:
 

‘‘(...) quase ninguém se suicida, mas todos se autodestroem. Nós bebemos e nós fumamos...’’

É na Área X que a coisa fica interessante ao se aventurar pelo terror cósmico de Lovecraft, principalmente na sua parte final, guardadas as devidas proporções.

O lugar belo e calmo parece intocado, tanto que rapidamente ficamos encantados pela sua placidez enaltecida pelos planos de Garland. Aliás, são diversas as características de Ex-Machina, outro longa do diretor, tanto pela separação capitular e pelo silêncio misterioso que toma conta (além de Oscar Isaac). No jovem diretor, há o Q de terror desde Ex-Machina, e em comum dos dois longas, uma reflexão de nossos "erros". Ali, fomos espelhados em uma máquina, em "Aniquilação", pela própria natureza, esta espelhada no eu.

Somos um só, com felicidades e tristezas, sorrisos e lágrimas, medos e temores. E quando Lena ajuda a explicar que a "redoma" que as envolve reflete seus DNAs o longa se explica e ganha força. Essa redoma não se trata de uma dimensão diferente, mas sobretudo de um espelhamento de nossos sonhos e pesadelos. Não é de se estranhar o fato de que elas simplesmente se esquecem de como chegaram até lá. Tal qual como nos sonhos, o mais lindo e florido; e naquele silêncio, o mais amedrontador, o desconhecido. 

Em comum, todas as personagens, com seus clichês, se foram ou se destruíram em algum ponto das vidas. Ventress tem um câncer em estágio terminal, Sheppard perdeu a filha e vive um luto constante, Josie sofre com a automutilação, Lena com a dor da solidão e da culpa. Nenhuma delas sabe bem o que é. Pode ser que ir para aquela missão suicida é um proposito sem explicação concreta. Mas iluminadas pelo Farol que guarda a maior parte do mistério, uma a uma vai padecendo de medo, e Lena motivada a ir até o final da missão, se diferencia das outras, sendo confrontada pelo seu pior pesadelo: ela mesma. 

Clube Minha Série
André Prado
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