[ editar artigo]

PARE TUDO O QUE ESTÁ FAZENDO E VÁ VER WILD WILD COUNTRY

PARE TUDO O QUE ESTÁ FAZENDO E VÁ VER WILD WILD COUNTRY

Aqui vai um relato pessoal. Quando eu trabalhava em um sebo, entre outras tarefas, como um bom vendedor eu tinha a tarefa de arrumar as prateleiras. E enquanto as de história e... sei lá, de humor eram intocadas e eu nem me preocupava em passar por ali, as referentes a medicina, administração e direito me davam muito trabalho. Sabe como é, jovens estudantes tratavam aqueles livros como a própria vida financeira. Continuando a percorrer a loja e a me deparar com a seção pornô revirada (com páginas coladas desde a doação, afinal, leitores precisam procurar novos meios de conhecimento e a internet naquela época estava tornando a atividade fotográfica bem raiz), era principalmente a seção de livros religiosos e de auto-ajuda que me davam verdadeira dor de cabeça.

Organizar prateleiras é um trabalho árduo, mas ao mesmo tempo um estudo socio-histórico-cultural valiosíssimo. 

Desde que o mundo é mundo o ser humano precisa sobretudo pertencer. Seja religiosamente ou transcendendo sexualmente, esses movimentos explicam em grande parte porque a seção religiosa e de auto-ajuda eram as mais bagunçadas naquela livraria. Não vejo necessidade de me alongar muito nesse assunto, pois na verdade a história explica que o aprendizado do ser humano, entre guerras e confrontos ideológicos, se equivale a tarefa de Sísifo de tentar enxugar um cubo de gelo - coincidentemente como era pra mim organizar aquelas seções. Não basta você apontar que tal coisa está errada, o ser humano de forma geral tem a capacidade de flexibilizar sua moral pra adequar a sua lógica destrutiva. Simples assim, como voltar a colocar o dedo na tomada só porque tem um buraco.

O que nos separa é a escolha. E o que moveu essa galera toda de "Wild Wild Country" pra enfrentar aquela jornada?

A resposta mais simples pra essa questão, seria dizer que aquelas pessoas eram meras deslocadas da sociedade. Bom, também, mas para você que pensa assim faça a seguinte reflexão: VOCÊ se encaixa nessa sociedade? Acho que a resposta é a mesma. Como disse, o que nos separa é a escolha, e nem a sua fé sequer é a mesma que a minha - tornando como base a tolerância.

Filosofias, ideologias, ideias. Elas são como qualquer produto, basta você ter a vontade de compilar os seus discursos no bar (melhor não) em um livro (que futuramente se localizará na prateleira mais revirada da livraria) e rezar pra que venda. Há auto-ajuda pra tudo, a mais antiga se chama amigo. Mas como amigos são raros e os que valem alguma coisa praticamente equivalem a cotação decimal do pi, os livros de auto-ajuda tem uma seção só sua entre "os mais vendidos" da (proto) revista Veja. Esses são os caras que compilaram suas ideias e querem ser o seu amigo. Você não conversaria com ele sobre tudo, mas pra aquele assunto ele serve. Daí você entende como figuras controversas como Rajneesh (ou Osho) aparecem de tempos em tempos - hoje é o tal Prem Baba.
 

Rajneesh ao centro e Ma Anand Sheela à direita

Charlatão ou inspiração? O guru Rajneesh Chandra Mohan não demorou pra nos anos 80 arrebanhar seguidores na Índia, seu país natal, com sua filosofia (sua graduação, por sinal) de profunda meditação e despertar da consciência. Em grande parte Osho, como ficou conhecido após a merda toda, tinha ideias no mínimo muito corretas numa análise mais atenciosa, contudo, o teor do documentário não é ele e nem a "sua filosofia" de vida, e sim o que ela se tornou sendo o estopim de algo muito maior: a luta entre grupos sociais.

Após anos de pregação na cidade de Pune, o Rajneesh, identificando a necessidade de expansão da sua seita, religião, resolveu se mudar para um latifúndio vizinho a vila de Antelope, no Oregon, após vários de seus estudos identificarem que a Constituição dos EUA garantiria a sua liberdade de pregação e que este lugar seria perfeito para dar seguimento a sua utopia de construir uma cidade cercada de amor e fraternidade. Certo.

Antes da chegada dos Sannyasins (ou Rajneeshees), Antelope era o lar de cerca de 50 aposentados, apenas preocupados em descansar até sua morte. E após a chegada dos milhares de jovens da seita de Osho, o lugar mudaria para sempre.

Falamos de uma área de 64 mil hectares vizinha de uma vila com aposentados com um forte senso nacionalista e cristão, vivendo num país pós-Vietnã e ainda assombrado pela tragédia de Jonestown, na Guiana, onde o líder carismático Jim Jones levou milhares de seus seguidores a cometer suicídio junto com ele. Era como girar o registro do fogão e tacar o isqueiro aceso. Aqui cale diferenciar, Jim e Osho eram líderes diferentes; enquanto Osho pregava a não-religião até negando a própria idolatria em torno de si, Jim era o ponto central da seita que pregava o final dos tempos. Mas para os pobres idosos da área isso não importava, seitas eram seitas e aquele bando de gente estranha que não fazia barba e transava no meio da rua não eram bem-vinda, mesmo LEGALMENTE comprando o direito de estar ali na terra da liberdade american way of life. 

Assim, os Bhagwan e seus Sunnyasins logo se estabeleceram, e a seita com mais espaço, foi se expandindo em ritmo acelerado, atraindo americanos jovens e ricos que viam naquela comunidade utópica de Rajneeshpuram a oportunidade perfeita de encontrarem o que não encontravam nas suas vidas: o novo. Isso sim vende. Alguém dizer que o que estavam fazendo e o modo que o mundo agia com eles estava completamente errado.
 

O shopping de Rajneeshpuram

Contando com uma estrutura impressionante, com lavouras, escolas, laboratórios, uma represa, e até uma pista para pouso dos aviões do Bhagwan (ele tinha dois, além de VINTE Rolls-Royce), a fazenda auto-sustentável de Rajneeshpuram era uma experiência construída com o dinheiro dos seus seguidores e dos milhares de livros, canecas, camisetas vendidas na certeira ação de marketing de Bhagwan e sua "general" Ma Anand Sheela, a quem o controverso Bhagwan dava carta branca para agir em defesa de seu sonho.

Bom, era o malfadado capitalismo atacando os maiores capitalistas que se tem notícia. E tudo dentro da lei como Moro prega.

Mas como bem dizia o saudoso George Carlin, os seus direitos são o que chamamos de "privilégios temporários". E na luta pela liberdade, na mais bela lei de ação e reação, cercada por xenofobia, preconceito, medo e ressentimento; no final das contas a violência só gerou ainda mais violência entre os lados, não importando se era ali cristão, ou amante da fraternidade.
 


A polícia de Rajneeshpuram literalmente pegou em armas

De um lado, Sheela, responsável por dar as cartas enfrentando tudo e a todos enquanto Bhagwan (supostamente) repousava. De outro os velhinhos de Antelope liderados por Bill Bowerman (1911-1999), um herói olímpico e fundador de nada menos que a Nike, que torrou toda sua fortuna para dar ainda mais força pra elite norte-americana, também com a força da lei, expulsar Bhagwan de seu quintal.

Descontadas certas falhas de fidelidade de informação e naturais discordâncias aqui e lá pra cada um dos envolvidos, certamente o documentário produzido pelos irmãos Way é uma pérola no catálogo da Netflix. Mais do que recontar tudo debruçado em um FARTO material, fica a visão de que o documentário primou pela parcialidade, deixando aquela pulga atrás da orelha do espectador e tornando complicadíssima a tarefa de defesa de algum lado da história justificando o próprio título. Ficou a moral de que tanto Rajneeshpuram como os EUA, protagonizaram uma selvageria (wild) sem precedentes.

Nada como a inacreditável realidade... É extremamente difícil a tarefa de resumir o documentário, dado a tantos plot twists que fariam qualquer showrunner ficar de queixo caído. Incêndios, envenenamentos, espionagem, burocratas... Quanto menos eu contar de "Wild Wild Country" melhor. Isso é ótimo.

Ao final das suas impressionantes seis horas, fica difícil dizer o que Bhagwan fazia para despertar tanta devoção em seus seguidores mesmo tantos anos após a sua morte, além da sensação de pertencimento que aquela comunidade fazia brotar em seus habitantes - não diferenciando muito das ecocomunidades e acampamentos religiosos que conhecemos hoje em dia, ou até mesmo de certos cultos evangélicos da sua rua.

Mas o que é loucura (wild) mesmo é o loteamento ter sido comprado após anos da desocupação dos Sunnyasins para ser também uma comunidade jovem auto-sustentável, com a diferença de que ela prega o não-sexo ao invés da liberdade sexual que a seita de Bhagwan prega. Mais do que isso, financiada por um americano branco. Claro que a comunidade, agora, o campo de verão Washington Family Ranch, não é um monte de pessoal vestido igual, mas não deixa de ser um bando de millenialunido que tenta achar sentido pra sua vida através de uma experiência sem sexo e com muito Instagram, só que agora gerida por um cara cristão numa camisa polo e não um guru forasteiro. Não deixa de ser diferente de uma seita pra mim, talvez nem pros vizinhos aposentados de Antelope ainda aterrorizados por tudo o que ocorreu. Bom, até que eles se incomodam, mas agora não tanto.
 

Caso se interesse em ver mais, clique aqui

Chutado da "terra da liberdade", Osho voltou para a Índia arrebanhando os mesmos Sunnyasins e tornando seu nome uma marca ainda maior e lá morreu por insuficiência cardiaca (alguns dizem que envenenado) em 1990, na mesma cidade onde tudo começou. E como personalidade morta, agora está vendendo livros como nunca. Repare na seção de auto-ajuda da Amazon mais próxima de seu dedo.

Certo que nessa aventura pelos EUA, numa jornada de fé e no desejo de pertencimento natural do ser humano, o balanço dessa impressionante história revelou as suas principais facetas como a esperança, a violência, o medo, a culpa, a coragem, a intolerância, o perdão. E a enésima lição ao observar essa fascinante história, de que a devoção cega (principalmente por certas personalidades que aqui no Brasil facilmente identificáveis) tem como objetivo uma urgente revisão, se temos mesmo a vontade de ter um compromisso como comunidade. 

Depois de assistir a Wild Wild Country, pare de novo e vá ver outros documentários que você pode encontrar na Netflix:

Cooked - Uma jornada pela comida

Betting On Zero - O hipnotismo da Herbalife

Five Came Back - Cinema e II Guerra

Clube Minha Série
André Prado
André Prado Seguir

O DescafeinadoBlog é um espaço pra compartilhar a minha paixão pelos filmes e séries com vocês, e agora no Clube Minha Série tenho uma oportunidade e tanto de demonstrar a visão que tenho sobre essas paixões. Acessem, please!

Ler matéria completa
Indicados para você