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Objetos Cortantes te faz repensar sobre o que vê

Objetos Cortantes te faz repensar sobre o que vê

Se formos olhar por uma ótica mais simplista, o plot de "Objetos Cortantes" se dá por um misterioso assassinato... Muito mais do que um mero thriller do tema, a série que terminou nesse último domingo nos lembra (novamente) da necessidade de reavaliar o olhar e repensar sobre as conclusões que moldamos.

Sim, nem tudo é tão simples quanto aparenta e o acusado nem sempre é o culpado!

Desde o início, percebe-se que a atmosfera de Wind Gap exala um cheiro podre, onde a elite descaradamente encobre a sujeira da cidade e pauta o que deve ou não ser dito, em favor de um "universo" que precisa permanecer inalterado.

Vale pontuar que, desde os que anseiam a justiça àqueles que "não tem nada a ver com isso", Wind Gap é aquele típico lugar que é ainda assombrado pela névoa do passado. 

Formado por pessoas, em sua maioria, misóginas e xenófobas, hipócritas por refutarem informações mas igualmente fofoqueiras sobre o dinheiro compra o silêncio alheio.

Nesse lugar incômodo aonde Gillian Flynn (que eu já conhecia do magnífico Garota Exemplar) nos coloca, a figura de Camille Preaker (Amy Adams) é a responsável por, junto com o espectador, desvendar o que está acontecendo.

A jornalista é guiada de volta para Wind Gap por causa de seu chefe Frank Curry (Miguel Sandoval) que dá a jornalista a missão de escrever uma matéria sobre a cidade e o próprio assassinato.

Com um senso paternalista, ele sabe que a pauta que dá para Camille não significa simplesmente uma matéria investigativa, mas também um perigo por haver um confronto dela com os demônios que ainda a assolam (alcoolismo, automutilação).

Retornando à sua cidade natal, a primeira impressão que Camille tem é que lá, nada mudou... Claro que, para nós, isso é somente uma impressão que temos sobre a protagonista (afinal, ela que está nos guiando para Wind Gap pela primeira vez).

À medida que os sufocantes episódios passam, a sensação de que "nada acontece" nos obriga a ter uma interpretação mais direta sobre como é inevitável ela ainda estar afetada por todo aquele mofo de Wind Gap, pois não importa aonde vá, desconta no álcool e em seu corpo todo o abuso emocional que sofreu de sua mãe Adora Crellin (Patrícia Clarkson).

 

Como espectador, é interessante perceber como a minissérie é um exercício de "desintoxicação" de roteiros cada vez mais pasteurizados. A direção de Jean-Marc Valeé (de Big Little Lies) soa como uma escolha acertadíssima nesse aspecto.

Contrariando o anseio do espectador, os flashbacks nada revelam, fazendo o espectador sentir um desconforto a todo momento, sendo obrigado a reavaliar cada fala e cena.

É como se nós fossemos colocados na cadeira de um psicólogo, tendo o trabalho de investigar cada suspeito no lugar dos inoperantes Bill Vickery (Matt Craven) e o "caipira" Richard (Chris Messina) - esse último representando justamente aquele espectador que está o tempo todo com o pé atrás, mas não porque está avançando de fato na investigação, e sim porque não sabe muito para onde ir.

É aí que a figura de Camille se torna tão importante, por ser aquele membro que entende a fundo aquelas relações tóxicas e conflituosas que fazem a cidade ser o que é.

O assassinato e o desaparecimento que fazem a cidade desejar que o Bob Nash (Will Chase) ou John Keene (Taylor John Smith) sejam acusados esconde muito mais que o mero senso de justiça. Na verdade, nesse caso, encontrar uma persona é moldar a mesma.

Através dessa matéria, torna-se o trabalho de Camille, através dessas sombras, enfrentar as figuras que inicialmente não podem ser tangenciadas.

A falsidade e a inépcia que personificam uma cidade que vê a si mesma como um lugar onde as aflições existem mas que, por não fazerem mal externamente, não são levadas em conta - a exemplo da Camille que não foi considerada pela sua família.

Flynn e sua Wind Gap, se aproveitam da curiosidade humana por lugares que não fazem parte do mundo atual, mas que ainda insistem em existir, "arraigadas" em cada pessoa sedenta por um conservadorismo que lhe dá identidade.

Por exemplo, Amma (Eliza Scanlen) é apenas um forte reflexo de alguém que não está mais ali, uma jovem cansada de estar parada no tempo e entediada ao ponto de enxergar uma falsa doença como uma quebra daquele ambiente tóxico que Wind Gap impõe.

Em um ponto de vista, posso imaginar o desgosto com a forma que o assassino é revelado; no entanto, entendo também que isso combinou perfeitamente com a proposta apresentada desde o início da minissérie.

Em paralelo, o plot principal e o twist final são apenas formas de demonstrar como a gente é capaz de ser parte o que cada habitante de Wind Gap é. Perceber também que justiça e ser justo são palavras  -que na teoria tem o mesmo significado, mas que na prática se tornam bem distintas.

Ambos trabalharam em cima de como era necessário enxergar Camille e os "Objetos Cortantes". Entendo que o verdadeiro plot era: daqui pra frente, torna-se necessário ter um outro olhar sobre tudo.

Clube Minha Série
André Prado
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