LEOPOLD FITZ E A IMPORTÂNCIA DE UMA BOA CONSTRUÇÃO DE PERSONAGEM
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LEOPOLD FITZ E A IMPORTÂNCIA DE UMA BOA CONSTRUÇÃO DE PERSONAGEM

Atenção: contém spoilers pontuais!

 

Para quem assiste Agents of S.H.I.E.L.D., é quase uma unanimidade apontar que, de todos os personagens da série, Leo Fitz (Iain de Caestecker) é talvez o mais adorado pelo público, dividindo a atenção, aqui e ali, com sua partner Elizabeth Henstridge (a Gemma Simmons). Mas, sejamos sinceros, é ele a quem o público logo adere, não somente por causa do carisma e do talento do ator, mas também pela empatia despertada pelo personagem, cuja jornada é um exemplo concreto de como uma construção de personagens, quando bem executada, torna difícil para o público desconectar-se dele. O que torna isso ainda mais curioso é que Leo Fitz nunca foi, em sua origem, um protagonista clássico, mas, pelo contrário, foi claramente construído como o alívio cômico pontual, cujo humor brotava (ou ao menos esperava-se isso) da interação tímida e quase desastrada com sua parceira de cena, explorando-se aí o elemento “friendzone” da dupla, bem como o nerdismo particular de ambos.

No entanto, este coadjuvante clássico, ao experimentar um importante ponto de virada na 2a temporada – na cena em que o sujeito quase se afoga – deu início a uma subtrama no mínimo tocante: ao ficar durante tempo considerável sem oxigênio, Fitz teve comprometida certos aspectos de sua cognição e de sua interação com os demais personagens. Uma situação que, aliás, foi explorada de forma magnífica pelos roteiristas da série, elevando nossa empatia pelo personagem, ao deixar transparecer todo o drama interno do indivíduo por meio de gagueiras, pausas, gesticulações nervosas e inquietação. Exemplo disso é na cena em que o personagem confronta seu algoz, Grant Ward (Brett Dalton): sem conseguir externalizar com palavras toda a sua mágoa, o espectador experimenta, junto com ele, de sua frustração, aproximando-os.

Nesse ponto da trama, o casal “FitzSimmons” deixava de ser o alívio cômico para ser, efetivamente a promessa de romance que ajudava a expandir a dramaticidade de uma série de ação que aos poucos encontrava seu arco geral. A partir da 2a. temporada, AoS caminhava pra deixar de ser aquela trama derivativa dos filmes para moldar seu próprio universo a partir de personagens que agora, sim, tinham certo apelo junto à audiência. E o "nerd-cientista-apaixonado" Fitz deixava pra trás essa camada de clichês limitantes e passava agora a experimentar uma jornada interna repleta de variações dramáticas, ajudadas, sobretudo, pela eficaz composição de Caestecker como ator: reparem, por exemplo, que o ator dificilmente opera acima do tom. Quando o faz, é pra salientar uma situação, que muitas das vezes lhe foge à competência (como nos episódios em que Fitz frustra-se em não conseguir um meio para salvar sua amada do planete Maveth).

Além disso, sua nêmesis, Dr. Leopold, no arco Framework, também seguia a mesma composição, com a diferença que lá o ator mostrava-se mais seguro e frio, sem deixar transparecer as inseguranças que Fitz, na vida real, sempre tenta esconder com seu vocabulário tecnicista e, por vezes, até mesmo blasé. E é este tipo de sutileza que trouxe ao personagem camadas complexas, que puderam ser retomadas, de forma surpreendente (mas absolutamente orgânicas), no fantástico episódio. Em The Devil Complex, Leopold Fitz conseguiu, ou ao menos está muito próximo disso, à sua hybris, no sentido de que sua atitude de descomedimento em relação à Dayse, leva-o à uma situação grave e possivelmente trágica, sem saída, algo que fica bastante claro naquela que é, pra mim, uma das frases mais tristes de AoS: “eu nunca vou te perdoar, Fitz”, dita por uma Chloe Bennett absolutamente fantástica em sua triste, mas compreensível, passividade.

Essa proposição trágica para o arco dramático de Fitz, embora possa irritar alguns fãs mais radicais – e que adorariam um final do tipo “owwwnnn...” para o personagem, podem torcer o nariz ou até mesmo maldizer os roteiristas da série, muito embora The Devil Complex faz todo o sentido dentro do “grande esquema das coisas”: ao emular sua sombra junto à sua persona (sim, estou meio que parafraseando Jung), Fitz também cria possibilidades pessimistas para todos os personagens de AoS, tirando-os da zona de conforto pois, se no episódio The Real Deal já havíamos nos deparado com a possibilidade da morte de Coulson, agora com a mudança de status de Fitz fica cada vez mais claro que a série abraçará um final sombrio, mas que poderá ou não se provar satisfatório.

Pois se o que Agents of S.H.I.E.L.D sempre teve de melhor foi a capacidade de mexer com o status quo de seus personagens e de sua estrutura narrativa. Leopold Fitz só é apenas uma peça dessa engrenagem que, no decorrer dessas temporadas, soube se desafiar e tornar-se complexa, ambiciosa e narrativamente satisfatória e instigante.

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