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Black Mirror: o nosso fracasso em lidar com a perda em
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Black Mirror: o nosso fracasso em lidar com a perda em "Be Right Back"

Seja através da tela do seu celular, do seu notebook, ou da sua TV smart; a tecnologia atual é um mundo de espelhos negros. Eu e Charlie Brooker entendemos que é daí que vem a ideia de "Black Mirror", DA black mirror onde tais "espelhos" refletem nada mais que anseios, anseios que residem no que (ainda) não temos. Anseios que podem ser traduzidos em medos, medo daquilo que não conhecemos ou de algo que não podemos mensurar.  

Na resenha da quarta temporada da série antológica, eu bati na tecla que o principal "defeito" da série reside numa arapuca que ela mesmo armou pra si. 

O "isso é muito Black Mirror" que se popularizou pela internet não só resumiu demais a série, mas como a diminuiu popularizando episódios que antes tinham um poder muito maior de tocar o espectador. Nada contra, afinal, tecnologia é o principal mote da série, e o largo consumo da série - antes capitaneada pela inglesa Channel 4 e agora encomendada pela Netflix - é extremamente benéfico. "Black Mirror" é cultura, e cultura DEVE ser massificada sempre. No entanto, o público mais "antigo" (e chato) como eu, percebe uma mudança de direcionamento clara por Charlie Brooker. Hoje, a série dos espelhos negros reflete sobretudo os anseios; adivinhando o futuro, especulando, e nos alertando de que "isso vai dar merda" em algum momento ao invés de expor também os medos e o consequente egoísmo dos seres humanos.

No final do mês passado mais uma notícia do "isso é muito Black Mirror" ganhou o mundo. A atriz e cantora Barbra Streisand assumiu em entrevista a revista Variety que os dois animais de estimação que ela tem foram gerados a partir de uma antiga cadela da atriz, Samantha, que morreu ano passado aos 14 anos de idade.

“Estou esperando elas [Senhorita Violet e Senhorita Scarlett] ficarem mais velhas para conferir se elas terão os olhos e a seriedade da Samantha”

Se você ficou interessado com a possibilidade, não é necessário ser um membro de Hollywood para tal, só desembolse cerca de US$ 50 mil (cerca de R$ 163 mil). 

Assisti uma reportagem a alguns dias que pessoas na rua foram perguntadas sobre se fariam o mesmo procedimento com o seu pet caso tivessem o mesmo poder financeiro da atriz. Pessoas disseram não, outras disseram sim; para estas é uma possibilidade ínfima, porém a resposta guarda a vontade antiga de todos os seres humanos em "vencer" a morte, de não dizer adeus a um ente querido. 

A clonagem abrange todo tipo de animal e com todo tipo de característica física, mas obviamente a clonagem não garante que a cópia seja igual ao original, apesar que certas características destes sejam emuladas e/ou afloradas nas cópias com o tempo e a convivência, etc. Depende de vários fatores, e essa possibilidade pra quem não lida muito bem com a morte de um ente querido, ou no caso, um cachorro, é muito bem-vinda. Fez brilhar os olhos de Barbra. E se fosse um humano, ou até ela mesma (se tiver essa enorme prepotência), faria o mesmo?

Acredito que futuramente, com toda certeza, essa será uma prática ainda mais difundida. Não só com animais, mas também com seres humanos a medida que essa tecnologia genética tenha sido aprimorada. Isso abre uma janela enorme de questões éticas e morais. Afinal, até onde uma vida de um ente querido vale a nós e o quanto somos realmente preparados para a NOSSA mortalidade. Somos incapazes de "seguir em frente", diria o filósofo. Será mesmo que muitos não tem a capacidade de amar uma nova pessoa ou animal? Eles e nós somos tão insubstituíveis?

"Se eu não posso ter você, não quero ter ninguém"

Dentre essa frase possessiva altamente difundida nos relacionamentos monogâmicos, em "Be Right Back" (S02E01) temos um debate sobre esse caso. É a velha coceira que "Black Mirror" tinha nas suas primeiras temporadas. 

Lembro que li uma reportagem sobre os algoritmos utilizados na redes sociais que cada vez mais abrimos mão de nós mesmos, e nos apps de relacionamentos isso é ainda mais evidente. Pense, entre os check-ins no Foursquare, fotos no Instagram, e textos no Twitter, deixamos por aí muitas informações. Apps como Tinder abrangem tudo isso; conectamos o Facebook, o Instagram e o Spotify a ele, inclusive a localização, com o intuito de o app entregar relacionamentos "cada vez mais eficientes". Esse é o futuro encenado em "Hang the DJ" (S04E04). 

Soa assustador né? Na reportagem do Gizmodo, a jornalista do The Guardian revelou que quando pediu a empresa que compilasse as informações dela em um relatório deu nada menos que 800 PÁGINAS com a análises diversas sobre sua personalidade, dizendo que ela tendia ou era aquilo. E creio que isso piora em apps como OkCupid, que além de tudo isso, mede também nossas diversas preferências através de perguntas básicas como "para aonde gostamos de ir no tempo livre". 

Com o pano de fundo simples calcado na tecnologia, o episódio se baseia na mescla da clonagem e desse "relatório virtual" que atualizamos todos os dias.

Para resumir, Martha (Hayley Atwell) e Ash (Domhnall Gleesom) é um casal extremamente feliz e apaixonado. Ash é a pessoa extremamente conectada, um pouco dessa geração millenial que vive compartilhando tudo o que pode na rede, e isso custou sua vida em um acidente de carro. Banalmente. 

Martha não suporta a perda do marido e em pesquisa pela world wide web descobre uma espécie de chat. Lembra do relatório que citei? Ash era uma pessoa extremamente conectada, um espelho piorado (ou talvez não) de nós mesmos, e todas as informações que ele espalhou pelas redes sociais são nada mais que o produto para um site aonde pessoas que perderam entes queridos podiam continuar a conversar com eles após sua morte. Simplesmente o algoritmo reuniu as informações de Ash, e fez um versão virtual do Ash, reunindo pessoas com os mesmos interesses que se negam terem que "despedir" das suas pessoas amadas. 

Não demora muito pra o que Martha fazia passar de um desabafo a uma dependência emocional. Perder alguém querido é uma dor imensurável. E claro, percebendo isso, a empresa dona do app atendeu a demanda de seu público, clonando essas pessoas e implantando essas informações coletadas nesses "avatares". O que poderia dar errado?

Chegando o boneco dele mesmo numa caixa, Martha não acreditava no que via. Ash estava de volta na sua vida, mas essa ideia pretensiosamente inocente dá muito errado. Claro, isso é "Black Mirror".

Eu e você sabemos, não compartilhamos nada - principalmente nas redes sociais - que não seja... feliz. Precisamos compartilhar momentos felizes simplesmente porque momentos felizes nos deixam felizes. A felicidade não é real se não é compartilhada, porém, são os momentos tristes e difíceis que realmente aproximam as pessoas.

Acredito que está aí a principal explicação para as amizades efêmeras e paixões momentâneas que tanto nos queixamos, é necessário muito mais que momentos felizes para que elas perdurem. Abraçar a tristeza é conhecer a nós mesmos e reconhecer que essas imperfeições das nossas vidas, é o que causam a verdadeira conexão entre duas pessoas, e isto nos deixa felizes. Não é a toa que sua avó dizia que "dá pra contar nos dedos os amigos de verdade", para manter algo verdadeiro requer esforço mútuo e perpétuo, para despedir-se dessa dependência emocional, também. Também precisamos aprender a cuidar de nós mesmos antes de nos envolvermos com outras pessoas.

Bom, como pessoa extremamente conectada que Ash era, a empresa gerou um avatar dele. Um AVATAR. Portanto, essa cópia de Ash é incapaz de se aperfeiçoar, sendo nada mais que uma folha em branco escrita e não desenhada, tornando-se impossível que Martha preencha essas lacunas ou torne-se a "metade da laranja" de fato.

"Be Right Back" pra mim é um dos episódios mais bonitos da série justamente pela sua simplicidade, superior a qualquer episódio posterior sobre relacionamentos - curiosamente uma área aonde "Black Mirror" brilha mais, caso de "San Junipero (S03E04) por exemplo.

Acredito que Barbra pense que através de "filhas" geradas pelos genes de sua falecida cadela, ela possa perpetuar alguns traços e relembrar algumas das boas lembranças que teve conjuntamente, tipo amar as novas cadelas e reviver o amor pela antiga ao mesmo tempo. Mas isso na minha concepção revela uma dependência emocional, e abre uma janela que o dinheiro supostamente pode comprar essa felicidade, ao passar a mensagem que no futuro "Be Right Back" seja algo comum e uma imagem de que as pessoas que podem pagar por isso são mais felizes e afortunadas do que as que não podem pagar. 

A mensagem é: ame, sinta, aproveite a vida ao lado de quem ama, seja um humano ou um pet. 

Sentimentos reais não podem ser fabricados, ainda mais sendo humanos na qual a verdadeira compaixão é medida pelos preconceitos e diferenças que simplesmente aceitamos e tentamos lidar. Algo que algoritmo algum pode ler. 

Não tenha medo de um dia dizer adeus a quem ama; pois se amamos de verdade alguém, essa pessoa será eternamente viva em nossas lembranças.

André Prado

André Prado

A ideia não era essa na sua criação a nove anos, mas resumindo: o DescafeinadoBlog é um espaço pra compartilhar a minha paixão pelos filmes e séries com vocês. Acesse abaixo please!

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