A constante fuga de BoJack Horseman
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A constante fuga de BoJack Horseman

Criada pelo comediante Raphael Bob-Waksberg para a Netflix, BoJack Horseman (Will Arnett) é uma série animada que conta a história de um ex-astro de televisão de uma série dos anos 90 chamada "Horsin Around" - uma espécie de "Três é Demais" - aonde um cavalo solteirão criava três crianças órfãs. Após o fim do show, BoJack é relegado a papeis menores ou ao simplesmente nada, restando a ele o dinheiro e o reconhecimento das pessoas na rua.

Extremamente narcisista, BoJack é um cavalo egocêntrico em busca constante pelo papel verdadeiro e que trará reconhecimento verdadeiro a seu suposto talento. Que até existe, mas é cruamente posto em cheque quando ele vê que foi indicado ao Oscar por um remake de um filme que ele assistiu na infância ("Secretariat"), mas ao invés de se sentir realizado, continua a se sentir o mesmo. O mesmo pedaço de bosta de "Stupid Piece of Shit" (S04E06).

Moralmente devastado por ser uma celebridade decadente, logo. sem propósito algum - um grande pedaço de merda - no início da série BoJack pede a Diane (Alison Brie) que escreva sua biografia "pra que todos conheçam e amem o verdadeiro BoJack". Enfiado no próprio mundinho, ao ter o livro publicado ele percebe o que ele realmente é: um ególatra destrutivo, mais um produto da indústria do entretenimento, e que foi engolido pela história que ele contava a ele mesmo. O que vai de encontro a frase abaixo da Princess Carolyne.

"Eu entrei nesse negócio porque eu amo histórias. Elas nos confortam, nos inspiram, e através delas criamos uma nova forma de como nós podemos experimentar o mundo. Mas também, você tem que ser cuidadoso, porque se você gastar muito tempo nessas histórias, você começa a acreditar que a vida são só histórias, e não são. A vida é a vida."


Talvez essa frase dita pela personagem felina Princess Carolyne (Amy Sedaris) em "See Mr. Peanutbutter Run" (S04E01) seja um dos momentos que mais sintetizem precisamente o que "BoJack Horseman" realmente que passar ao espectador.

Claro, a série é lotada desses momentos, principalmente após o começo da segunda temporada aonde a série assume de vez o peso existencialista que BoJack e todos os outros personagens principais carregam; logo, a série nada mais é do que um retrato fiel em como cada um lida com o fato mais cruel da vida, que é seguir em frente e usar da sua realidade pra fugir do inevitável.

Um caminho em que nos auto-sabotamos a todo momento, se nos deixamos aprisionar pelo passado e nos entregarmos a eterna distração. Uma verdadeira tragédia Sartreana (filósofo que ele cita) onde BoJack usa o álcool e as drogas como escape constante e finito, a velocidade como fuga dos seus problemas e o passado como causa de tudo isso, num constante círculo vicioso aonde por ele não conseguir lidar consigo mesmo, sua condição humana de ser livre e a angústia que é ter escolhas em em mundo estrelado que aos poucos deixa de fazer sentido para ele.
 

"Todo dia fica mais fácil, mas você tem que fazer todo dia. Essa é a parte difícil" 
- "Out of Sea" (S02E12).


Além da dura e precisa crítica ao mundo do showbiz que já fica evidente na primeira temporada, devido a vida de BoJack regada a álcool, sexo e drogas que tomou conta da sua vida após o fim do programa. É também entre assuntos sérios tratados com ironia ao ponto do escracho que a série brilha.

Seja feminismo, aborto ou política, elas se tornam nada mais que um produto que a indústria cultural consome com o objetivo de entreter seu público em discussões vazias e sem nexo; ali em Los Angeles, todos os personagens tem sua história triste pra contar numa série que aos poucos se revela como uma grande fábula moderna de nós mesmos, onde o antropormorfismo é utilizado habilmente como alívio cômico e uma grande metáfora dos nossos instintos, surpreendendo aqueles que por ser um desenho animado esperam algo mais simplório como as gags de "Os Simpsons" e "Family Guy".

Sendo assim, "Hollywoo" no final das contas acaba sendo uma bela brincadeira de um mundo paralelo, mas muito real a serviço da antropormorfia de deuses e temores antigos; um espelho de anseios e medos depressivos que revelam a podridão humana, ao contrário do que esperamos que uma animação entregaria limitando-se às risadas sobre nossas desgraças.

Mas tudo é uma metáfora, é o que ele ouve em seu walkman em "Brand New Couch" (S02E01). É o que ele percebe no genial episódio "Fish Out of Water" (S03E04), seja na água ou pelo bebê, onde a distração o impede de ele perceber o óbvio que o inveterado Todd (Aaron Paul) percebeu:

O problema é ele mesmo. 

A solidão e o pertencimento andam de mãos dadas. São as histórias que contamos e construímos que fazem nós mesmos, e se BoJack perceber que é um cavalo livre afinal das contas ao invés de tapar o sol com a mão na abertura da série, como Sartre diz, pode ter consigo a sensação de pertencimento que tanto procura. Aquele sorriso que ele deu em "What Time Is Right Now" (S04E12) e que é uma visão otimista para o existencialismo do filósofo se formos observar o que Princess Carolyne diz: "a vida é a vida".

André Prado
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